HOMENAGEM AO POETA – TRIBUTO A LUPICÍNIO RODRIGUES
COMPOSIÇÃO: MARIA FERNANDA SILVA FREITAS / GILDO JOSÉ MOREIRA CAMPOS

Do alto do morro, olhando a cidade, envolto à saudade me ponho a pensar
Para onde foram os violões em festa, a velha seresta em noites de luar
Então a tristeza me estende seu manto, mas antes que o pranto chegue aos olhos meus,
Abraçado ao pinho eu canto baixinho, canções de um poeta que está junto a Deus.
Cantava ele um dia dizendo a esses moços, que às vezes o amor também pode marcar.

Que ela nasceu com o destino da lua, e que em pensamento se pode voar.
Falou nas pessoas de nervos de aço, também alertou as Marias de agora.
Contou que uma vez ela disse-lhe assim, que a felicidade já tinha ido embora.
Avisou que, se acaso você chegasse, a sua cadeira ainda estava vazia.

Fez um coquetel com os seus sofrimentos, depois cantou “Nunca” só por judiaria.
Pegou um rosário feito de esperanças, e sua vingança não foi esquecida.
Colheu uma flor no jardim das saudades, sob um amargo, e partiu dessa vida.
Mas eu, que ainda moro num morro tão alto, distante do asfalto, pertinho de Deus,

Quando a luz da lua no céu resplandece, em forma de prece canto os versos seus.E depois de homenagear ao poeta, com rima estileta e muita nostalgia,
Com sorriso franco, pisando os barrancos, eu volto ao barraco como ele fazia.
Com sorriso franco, pisando os barrancos, eu volto ao barraco como ele fazia.


Rogação
Guto Hueb/Fernando Hueb

Sinto sonho sigo em frente
Fome como assusta a gente
Torço coração aguente
Saio à lida devorar
Franco encontro com a tristeza
Desço a lassa tirolesa
Só suplico à realeza
Nossa brida rebentar
Deus me arrasta, fora à casta. Pai me afasta a provação.
Trégua à angústia, sina espúria. Faça jus à criação!
Vem me afaga, vem me aclara, vem à luz da salvação. Qual a zanga, qual a sanha, não me pene
assim em vão!
Quis adormecer, esmorecer, fronte do fim.
Brigo, luto, persistente
Corpo, com ação valente
Frente o embargo estridente
Rasgo a vida recobrar
Preso ao fardo da pobreza
Enfadado à correnteza
Rogo face à aspereza
Trilho escuro lumiar
Deus me arrasta, fora à casta. Pai me afasta a provação.
Trégua à angústia, sina espúria. Faça jus à criação!
Vem me afaga, vem me aclara, vem à luz da salvação. Qual a zanga, qual a sanha, não me pene
assim em vão!

 


DO OIAPOQUE AO CHUÍ (Zebeto Correa/Zé Edu Camargo)

Viajei por todo o país de Norte a Sul
procurando entre a gente o que é comum
de cidade em cidade nos sertões
varei cerrados, favelas,chapadões…

atravessei terras secas e aguaceiros
nos pantanais e caatingas brasileiros
Desci desde Roraima, o Caburaí
passei no Oiapoque, acabei no Chuí

em cada canto um sotaque diferente
ouvi muito uai, muito tchê,muito oxente
tomei chimarrão e matei tereré
dançando xaxado, aché, chamamé

Andei de carroça e de Audi novinho
voei de avião, fui à pé no caminho
naveguei num gaiola que nem meu avô
peguei pau de arara, busão e metrô

dormi em tapera e hotel de bacana
também nas areias de Copacabana
cruzei quadrilhas no centro de Sampa
senti minuano nas bordas dos pampas

nadei com os botos na foz do Amazonas
e com os golfinhos no mar de Noronha
Vi meninos fumando maconha no Rio
em Pelotas meninas chorando de frio

em Goiás um garoto aprendendo a gostar
da garota que mora no sétimo andar
um guri montando cavalo em Maringá
um curumim guiando Jipe no Pará.

Provei o que é diferente pra entender o igual
tanta marca de aguardente , tanta carne no sal
mandioca e macaxeira, robalo e camurim
peixe comprado nas feiras, feito assado e assim…

a moqueca capixaba sem o dendê do baiano
açaí salgado no Norte é sorvete curitibano
e no fim uma certeza que no campo e na cidade
o Brasil tem uma beleza que é igual em toda parte
na miséria e na riqueza, carteira de identidade
o que muda é sutileza e o que vale é nossa arte

de viver no novo mundo sem ter rivalidade
definir nossas fronteiras e ter como afinidade
nossa língua portuguesa e a palavra saudade…saudade…saudade…


EU DIVERSOS
(Luis Dillah – Joãozinho Gomes)

Quando a dor me acerta em cheio
Sem receio eu me embelezo
Entre as pedras eu vagueio
Entre espinhos me revezo

Sigo o sol sem aperreio
Vou ileso, nada leso
Abro livros, me releio
Não me aflijo não me enfezo

E divido-me ao meio
Quando o tempo é adverso
Pois não creio que o inteiro
Faça às vezes do diverso

Dor que atinge de voleio
Sem rodeios a desprezo
Nem Rimbaud sequer eu leio
Mas passeio no inferno

E jamais me enlameio
Quando ao pântano atravesso
Do meu baio não apeio
Sou avesso ao reverso

Quando a dor me acerta em cheio
Eu recheio-me com versos
Jogo flores no que odeio
Colho astros no universo

E me torno o ser que eu creio
Anjo torto, gauche inverso,
Se lançar-me é meu recreio
Firmo o corpo me arremesso

Passo a ser um ser e meio
Evoluo pra diversos
Nova tribo eu me nomeio
E de mim não mais disperso


A Corrente das Marés (Thiago K/Gregory Haertel)

Um mergulho na noite e minhas angústias vem me abraçar
Eu afundo sem bóia, nenhum salva vidas pode me salvar
Onda em alto mar

Vejo grãos de areia, abraço sereias no fundo do mar
Num porão de naufrágio não acho refúgio onde me deitar
Onda em alto mar
O meu barco já virou
A corrente das marés
Me levou

O meu sangue goteja, nos búzios tristezas querem me rasgar
No oceano, sozinho, nenhum pergaminho para me guiar
Onda em alto mar

Movimento os braços, procuro espaço, busco escalar
As montanhas de água não querem dar trégua, tentam sufocar
Onda em alto mar
O meu barco não voltou
Da corrente das marés
Me levou

E aí
Eu me vi
Longe do cais
Me enroscando
Entre os corais

Na ferrugem dos anzóis
O vazio do mar

E nadei
Nenhuma luz
Fracassei
Mananciais
Submergi da minha cruz
Eu e o mar


TO VIRANDO COISA (Marco Vilane/Alexandre Lemos)

Meu resultado tá incluso na velha planilha
Que compara o que eu produzo mais minha família
Dependentes que eu deduzo em troca de um desconto
Pelo ar que ouso e uso enquanto bato ponto
No emprego que eu arrumo pra ganhar dinheiro
Porque é nesse resumo que eu me explico inteiro
Sei que a vida tem seu rumo meu pirão primeiro
Porque a fila do consumo
É meu paradeiro

Tô virando coisa Socorro
Tô virando coisa me ajuda
O bicho pega e come enquanto fico e corro
Tô virando coisa
E isso nunca muda

Tô fechando pra balanço quase concordata
Senta que o leão é manso o foda é a gravata
Cada música que eu danço mais me comprometo
Com a despesa que eu não lanço nesse livro preto
Compro, vendo, alugo e troco e ainda peço esmola
E pra não perder o foco bebo coca cola
Mas é no espaço eu me desloco dentro da engrenagem
Mas é no tempo que eu provoco
A falta de coragem

Tô virando coisa Socorro
Tô virando coisa me ajuda
O bicho pega e come enquanto fico e corro
Tô virando coisa
E isso nunca muda
A cidade tá confusa toda engarrafada
A mulher está reclusa, anestesiada

A canção trocou a musa pela propaganda
Meu amigo veste a blusa que a empresa manda
Meu coração às vezes bate às vezes se amofina
To vivendo de biscate, camelô de esquina
Sou um número sem nome, areia do saara
Tomara um dia o mundo tome
Vergonha na cara
Tô virando coisa Socorro
Tô virando coisa me ajuda
O bicho pega e come enquanto fico e corro
Tô virando coisa
E isso nunca muda


PA REZÁ – (Élio Camalle/ Daniel Gonzaga)

Nove horas, meio dia,nada desse sol chegar.
Tenho que fazer a feira ,tenho roupa pra lavar….
O tempo esbanja ironia muda as coisas do lugar
Se não oferece ajuda não vem me atrapalhar
Veja lá na geladeira se “alegria” ainda há
Rogue ao santo, a padroeira
Um cantinho sob o altar, “pa rezá”

Pano de prata furada, colchas para retalhar
Jogo de língua afiada pra curtir e pra cortar
Tira o pó dessa jornada,lave a alma até brilhar
Esfregue tudo a mão armada de desejo de
limpar, “pa rezá!”


Admita (Amauri Albuquerque/ Fernando Lopes)

Meu quarto é meu santuário
Com belô ou sem belô, debaixo do meu cobertor não me sinto solitário
Seu eu grito ou se eu rasgo o dicionário
Se eu berro, ou se eu atiro flores
ou pedras no aquário
É que eu já virei sexagenário,
sexagenário
Choro ou dou risada da tua piada sem graça
Vivo, morro, tudo culpa, é tudo culpa da cachaça
Refrão:

Se vivo você me enterra
Se morro você me ressuscita
Não consegue me tirar da sua vida
Admita, admita
Se vivo você me enterra
Se morro você me ressuscita
Quando você me vê
Você me engole ou vomita


 

MERY BARAKÁ
Joãozinho Gomes e Enrico Di Micelli

Palavras não traduzem o que dizes
Mas servem pra dizer o que deduzes
O teu iorubá não tem matrizes
A língua que tu falas vem das luzes

Explodem-se poemas quando surges
Os versos se espalham em matizes
Na roupa em que teu corpo dentro luz 
Em danças ancestrais das tuas raízes 

Mery mina preta de Xangô
Flor da floração do Baobá
Dália no xaxim do grande amor
Preta mina Mery Baraká…

Palavras não descrevem teu sorriso
Mas servem pra mostrar tuas atitudes
Tua dança tudo induz ao paraíso
Tuas falas mansamente são virtudes

Estrelas caem aos montes amiúde
Ao verem que teus olhos são felizes
Assentam-se à sombra do teu ruge
E sonham habitar teus brincos grises


PELÉ DOTÔ [Ítallo França]

Pelé Dotô
passou depois do café
com picolé de sabor
no carrinho da Kimé
carro Kimé!!!
gastando vida de preto
meio na base do veto
botando força no aviso
jogando a sola no piso
daquele medo concreto
de não vender
nem no calor
pra não cair no engodo,
sair dali de algum modo,
malandro ou bom jogador
meio pelé, mei dotô
meio pelé
Meio Dotô,
brotou de bike e boné,
com bag de entregador
na estação da Sé
Praça da Sé!!!
Descendo a escada rolante
subtraindo o montante
com a integração do bilhete
cumprindo a missão do frete:
pastel e refrigerante
No Sumaré,
No corredor
fiscal na limpa do rodo
sair de ali de algum modo
deixando no elevador
comida pro morador

bebida pro morador

Adorador
calhou no caderno C
cachê, crachá de cantor
de nova MPB
E-ME-PE-BÊ!!!
gastando vida de filho
meio na base do atalho
botando força no ativo
lucrando no aplicativo
com nome no cabeçalho
da top 100
na top 1000
turnê pelo mundo todo
sair dali de algum modo
representando o Brasil
malandro ou bom jogador
descendo no elevador

[REPETE TUDO NO B]

AO MEIO (Valério Velho)

QUERO CANTAR
EM LUA CHEIA
NA RUA FEIA
MAR E AREIA

EM QUALQUER LUGAR
DESERTO E CHEIO
QUANDO EU CHEGAR
ABERTO AO MEIO

É AQUI DO MEU LADO
JÁ VI UM BOCADO DE TUDO
REDENÇÃO E PECADO
CORAÇÃO CUIDADO…O MUNDO

TEM TEMPO QUENTE…TEM TEMPO FRIO
SOBREVIVENTE TEM QUE SE VIRAR
TEM AGUARDENTE PRO COPO VAZIO
E FÉ PRA GENTE DELE DESVIAR

TEM A SEMENTE COM SUA PROMESSA
E TEM A PRESSA DE NÃO ESPERAR
QUEM QUEIRA TANTO…QUEM NADA PEÇA
EU TENHO ESSA SEDE DE CANTAR


Música e Poesia : É Tudo Pé de Cerrado
Autor: Edu do Vale

Poesia:
Velho sertão Cerrado
De serra, “tratô”, machado
Vive assim, “ajudiado”
Um velho “sinhô” esguio
De pele crespa, enrugada
Caminha na encruzilhada
Tentando fugir da morte
Resiste ao fogo, à seca, ao corte
“Eita” peleja danada
Ah, velho cerrado
Dizem que “ocê” é mato torto
Mas num é assim que Deus escreve?
Pra quem te conhece pouco
Deixe de falar besteira
Esse torto é consagrado
Pelo povo estudado
O berço das águas brasileiras
Nasce nele o São Francisco
Tocantins e Araguaia
Parnaíba, Gurupi
Paraná e Paraguai
E sem um pingo de vergonha
Faltou “falá” do meu querido
Rio do Jequitinhonha
E pra cumprir essa missão
Ser guardião de tantos rios
O velho senhor cerrado
Precisa de mais cuiado
Merece lei de proteção
E nessa fala eu me despeço
Na “foia” pequizeiro
Na batida do tambor
Na viola e no pandeiro
Eu vou cantar com muito amor
Pro cerrado brasileiro

Música:
Eu Avistei um tronco torto na chapada do Jequi
Com três ninhos de garrancho e um tiziu pousado ali
Vi um casal de cutia que sumiu sem despedir
Voltei pra casa contente com um saco de pequi
Mas é um pé de que? Esse é um pé de pequi (3x)
Vamos juntos proteger pra não deixar ele cair

Depois d’uma caminhada tive que “arrepará”
Um tronco de casca dura e as “foia” de embelezar
Na sombra tinha um “pisêro”, cama de Tamanduá
Quebrei no pé três “faveiro” do fruto do Jatobá
Mas é um pé de que? É um pé de Jatobá (3x)
Cuidem do nosso cerrado “prum” deserto não virá

Vi Pau d’óleo, Macaúba, Mutamba, vi Mulungu
Jacarandá do Cerrado, Saputá e Araticum
Anjico, Mamacadela, Ipê e Uruvaieira
Eu vi formar cama de paina
debaixo de uma Paineira
É tudo pé de que? É tudo pé de Cerrado (3x)

Esse bioma tem história, merece ser preservado
Andando pela vereda eu encontrei um Jataí
“Imbruiado na rameira” do oco do Muricí
Pulei córrego, barro e brejo, pelejei pra não “caí”
Descansei batendo pedra no coco do Buriti
Mas é um pé de quê? É um pé de Buriti (2x)

Mas é coco de que? É coco de Buriti
Pra gente mudar o mundo é preciso se “arreuní”
Já “tava” entardecendo prossegui na caminhada
Topei “c’uma” Seriema ela correu muito assustada
Parei numa sombra boa, ali me deliciava
Colhi mais de cinco quilos
do fruto de uma Mangaba
Mas é um pé de que? Esse é um pé de Mangaba(3x)

É a rainha do Cerrado mais está ameaçada
Satisfeito da colheita fui pará lá no grotão
Pra poder matar cede na beira do ribeirão
Cheguei lá, mas que tristeza, só vi brasa e carvão
O fogo acabou com tudo, a grota virou torrão
É pé e mão de quem?É pé e mão de ser humano (3x)

Esse bicho é criminoso destrói tudo e sai queimando
Logo a frente no caminho uma coisa estranha eu vi
Pau reto, monocultivo, não tinha mais bicho ali
Alembrava uma floresta, mas fiquei a refleti
Parece que o cerrado acabava por ali
Mas é um pé de que? Esse pé não é daqui (3x)
Falar que é plantar floresta é história pra boi dormir